POR QUE NÃO OS DEIXAM FALAR?

Esta é a pergunta que agora faço a mim mesmo — não por falta de interlocutores a quem dirigi-la, mas porque, muitas vezes, nem todos os interlocutores estão dispostos a compreender o seu alcance.
É a pergunta que costumo repetir quando ocorrem fatos como os da morte da ve-readora carioca.
Uma pergunta recorrente a cada vez que me deparo com um acontecimento idênti-co. Uma pergunta e nada mais.
Por que não os deixam falar?
E sou obrigado a fazer e refazer esta indagação até a exaustão, em circunstâncias semelhantes, por causa de três heranças às quais estou inevitavelmente ligado.
Primeiro, porque pertenço ao amplo leque do cristianismo.
Pertenço a uma saga histórica de pessoas que foram perseguidas e mortas, algu-mas decapitadas, outras lançadas aos leões, e ainda outras tantas submetidas a tipos criativos de execução, pois não falta criatividade a quem se dispõe a matar — e foram perseguidas e mortas justamente por causa do que falavam.
Pergunto o que pergunto porque representantes deste mesmo cristianismo, tão lo-go tiveram à mão algum poder, e apesar do fato de terem sido implacavelmente persegui-dos por extremistas do judaísmo e tiranos do governo romano, começaram a perseguir e a matar.
Muitos cristãos foram mortos, mas também mataram a muitos nas fogueiras inquisi-toriais, cujas chamas serviam para combater e, definitivamente, eliminar os pensamentos divergentes. E nada melhor para eliminar pensamentos divergentes do que calar aqueles que os propagam.
Por que não os deixam falar?
Repito a pergunta em pauta porque, em segundo lugar, pertenço a um território, dentro do multifacetado mundo cristão, formado pelos protestantes.
Tal qual ocorrera antes do surgimento das comunidades reformadas, os protestan-tes também foram sistematicamente perseguidos e mortos pelos cristãos que detinham o poder religioso em concubinato com o poder político.
E tão logo alcançaram um determinado patamar de domínio, passaram a perseguir os divergentes, como Miguel Servetto — médico espanhol martirizado no contexto calvi-nista suíço — e grupos separatistas, como os anabatistas, que tiveram de suportar o peso da intolerância luterana.
Por que não os deixam falar?
Volto a fazer a mesmíssima pergunta, e já sei que os leitores começam a se cansar de ouvi-la, porque pertenço a uma terceira herança, no contexto do cristianismo reforma-do, surgida no século XVII, em solo inglês, e que foi perseguida pela Igreja Anglicana por defender o princípio da liberdade e da autonomia do indivíduo.
Muitos batistas foram presos, como Thomas Helwys, que passou o resto dos seus dias atrás das grades, ou até mesmo mortos — gente anônima de quem não sabemos a identidade, nem histórico, nem hábitos, nem virtudes, nem defeitos, nem frustrações, nem sonhos, nem nada, por pertencer a uma massa sem rosto e sem qualquer distinção — e sofreram as agruras da perseguição e da morte por defenderem o direito dos indivíduos de expressarem suas opiniões sem a sombra da ameaça à integridade física e emocional.
Por que não os deixam falar?
O exemplo da firme fidelidade dessas pessoas aos seus princípios, dos quais rece-bi a herança que hoje defendo, leva-me a adotar um princípio fundamental: aqueles que foram perseguidos não podem perseguir jamais. Ou ainda, não devem admitir qualquer possibilidade de perseguição aos que falam.
Por que não os deixam falar?
A fala, a palavra, o verbo são elementos intrinsicamente ligados ao registro da re-velação a que, pelos menos teoricamente, costumamos respeitar e reverenciar. No princí-pio de tudo, Deus falou. E porque falou, as coisas foram criadas. Depois, os profetas fala-ram. E, no ápice da revelação, a palavra se tornou carne e continuou a falar. Seguida dos apóstolos que, dispostos a pagar qualquer preço, prosseguiram no cumprimento do ministério da fala.
Somos, enfim, o povo da fala. E devemos ser os primeiros a defender os direitos das pessoas a falar, independente das ideias que expõem. Onde quer que estejam, e seja qual for sua origem, ou cultura, ou profissão, ou sexo, ou religião, ou ideologia política — se não apregoa a exterminação da vida ou da dignidade humana — a sua fala tem que ser respeitada e resguardada.
O povo da fala deve, onde quer que ande — como diante desse fato chocante que presenciamos no Rio de Janeiro — não pode abrir mão de garantir os direitos da fala.
Enquanto as manifestações populares enchem as ruas, os partidários de direita e esquerda tecem acusações mútuas, os políticos se mobilizam para tirar proveito do ocor-rido (que é o que bem sabem fazer, tirar proveito de tudo para seus próprios interesses), as redes sociais se movimentam em debates às vezes serenos, e não raro furiosos, as forças policiais iniciam as operações de investigação, a imprensa divulga os fatos de acordo com suas diretrizes editoriais, as repercussões acontecem em todos os canais de comunicação, as mesas dos bares discutem os acontecimentos, os estudantes redigem redações sobre o tema, ou em meio a tantos outros desdobramentos, o povo da fala deve repetir a pergunta crucial, de modo insistente, para fazer ecoar as vozes de milhares do passado, que também foram calados porque falavam, e de milhares do futuro que ainda serão calados, de maneira que todos possam ouvir e, a partir do que ouvem, passar a refletir
É principalmente ao povo da fala que fica a responsabilidade de sempre relembrar a pulsante e irreprimível pergunta.
Por que não os deixam falar?

 

Autor: Carlos Novaes

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