Querido leitor, estamos vivendo em um tempo inédito. Nunca a nossa geração experimentou viver em uma quarentena, isolando-se e precavendo-se contra um inimigo invisível. O coronavírus, ou o COVID-19, tem se mostrado avassalador em alcance e em letalidade, principalmente entre os idosos. Cientistas de vários países têm trabalhado dia e noite para encontrar vacinas, medicamentos e diagnósticos. O mundo tem pressa. É sobre isso que eu quero falar neste texto.

Primeiramente, é preciso trazer à lume que a ciência não é um domínio que está debaixo da Igreja ou do Estado, ela tem o seu caráter independente. A partir dessa afirmação, podemos observar que a ciência pertence à criação. Abraham Kuyper (1837-1920), teólogo e estadista holandês, sobre isso escreve: “Se nossa vida humana tivesse se desenvolvido na situação edênica, distanciada do pecado, então a ciência ainda assim teria existido tal como existe agora, apesar de que seu desenvolvimento teria sido completamente diferente.”.

Veja, o que Kuyper está mostrando é que, mesmo que a ciência tenha sofrido uma deformação ante o seu estado inicial, não podemos dizer que ela surgiu depois da queda. Tendo sido decretada antes da queda, a ciência, portanto, nasce de um pensamento divino, em plena claridade e consciência, de eternidade a eternidade (cf. Pv 8.22-31).

A essa altura você deve estar se perguntando: o que o coronavírus, a ciência e a glória de Deus têm em comum? Tudo! De acordo com Kuyper, a essência da ciência humana se apoia no seguinte tripé:

1. A rica clareza de que todas as coisas procedem do pensamento de Deus, da consciência de Deus e da Palavra de Deus. A totalidade da criação deve ser compreendida simplesmente como fluxo desse pensamento divino. O pensamento divino se encontra incorporado em todas as coisas criadas. Não há nada no universo que deixe de expressar – de encarnar – a revelação do pensamento de Deus. Toda criação nada mais é do que a cortina visível por detrás da qual irradia a operação excelsa desse pensamento divino.

2. Na criação, Deus revelou e concretizou a plenitude de seus pensamentos. Por meio deles, todas as coisas são sustentadas; todas as coisas devem a Ele o seu curso de vida e a certeza de alcançarem seu fim último. Desse modo, podemos e devemos reconhecer e confessar incondicionalmente que a totalidade da criação em sua origem, existência e progresso constitui uma única e integrada revelação daquilo que Deus, na eternidade, pensou e estabeleceu em seu decreto divino.

3. Deus criou nos seres humanos, portadores de sua imagem, a capacidade de inteligir, abranger, refletir e organizar, dentro de uma totalidade, esses pensamentos descritos na criação. Neste ponto, portanto, a atenção recai para uma capacidade concedida aos homens. É como se o homem estivesse habilitado a sair de sua concha e espiar, por assim dizer, o pensamento de Deus, que se encontra incorporado na criação. E, ao captar o pensamento divino nela, os seres humanos são capazes de refletir o pensamento que Deus incorporou nessa criação, já na sua origem. Ou seja, essa capacidade da natureza não foi adicionada como algo extra, mas pertence ao próprio fundamento da natureza humana.

Tudo isso evidencia que o homem tem, sim, uma capacidade que lhe é inata e que é dada pelo próprio Deus para “escavar” a criação e fazer ciência, pois é no momento em que os seres humanos empregam essa capacidade, para refletir os pensamentos de Deus acerca da criação, que ela surge. Isso independe se o indivíduo é cristão ou não, esta graça comum abrange a todos.

Logo, a ciência não é uma possessão adquirida pessoalmente por cada indivíduo Pelo contrário, ela cresceu gradualmente, em relevância e estabilidade, apenas como o fruto do trabalho de várias pessoas, entre várias nações, no curso de séculos.

Por isso, quando homens correm para descobrir uma vacina efetiva para este, ou outros problemas, Deus é glorificado, ainda que estes não conheçam todos os pressupostos. Afinal, todo o labor foi criado e é conduzido pelo próprio Deus.

Que o Senhor dê graça a todos os cientistas e pesquisadores que estão envolvidos em tão grande tarefa. E que ao “cavar”, eles possam trilhar as sendas do desenvolvimento segundo o próprio Deus já estabeleceu, descobrindo algo muito maior: o Arquiteto e Artista por detrás de toda a criação.

Desta maneira, podemos compreender que, ao fazer ciência e encontrar a vacina, da mesma forma que tantas outras já foram encontradas, contemplamos um milagre divino. Quem sai louvado no fim é Deus, não a ciência. Como disse o apóstolo Paulo: “Porque todas as coisas são dele, por ele e para ele. A ele seja a glória eternamente! Amém.” (Rm 11.36).

Filipe Ribeiro

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