Martinho Lutero: O caminho da torre

 

No dia 31 é celebrado a Reforma Protestante e o Seminário do Sul traz para você um artigo de autoria do Diretor Acadêmico, o Dr. Valtair Miranda, para a sua leitura.

MARTINHO LUTERO: O CAMINHO DA TORRE[1]

 

Prof. Dr. Valtair A. Miranda[2]

Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil

 

Lutero era um jovem universitário de comportamento discreto, como muitos outros de seu período. Ele tinha amigos na cidade, e vivia bem no meio deles. Mas sua carreira como estudante de direito durou apenas dois meses. Ele interrompeu seus estudos e decidiu ingressar no convento agostiniano de Erfurt, apresentando-se às portas do mosteiro negro, como era chamado, no dia 17 de julho de 1505, quando estava a quatro meses de completar 22 anos de idade.

Em sua narrativa sobre esta decisão, ele construiu um vínculo entre a vocação e uma experiência de terror no interior de uma tempestade. Ao voltar de casa, junto a Stotternheim, nos limites de Erfurt, assustou-se pelo efeito de um raio, e exclamou atemorizado: “Ajuda-me, Santa Ana, e serei frade.” Catorze dias depois ele ingressava no mosteiro.

Martinho teria ido passar dez dias com sua família. Não se sabe exatamente porque ele os visitou. Não era o período de férias. Talvez essa viagem de Erfurt para casa já fosse parte de um plano para alcançar a concordância do pai quanto à saída do curso de direito. De qualquer forma, no retorno, quando ele estava há oito quilômetros de Erfurt, ele viu uma tempestade, com relâmpagos e trovões. Logo um raio caiu a alguma distância dele. Somente ele, e ninguém mais, viu a queda do raio. Instintivamente, invocou a ajuda de Santa Ana, como, possivelmente, teria visto seu pai, mineiro de Mansfeld, fazer muitas outras vezes.

Santa Ana era patrona dos mineiros. Naqueles dias, entretanto, a maioria dos saxões lhe era devoto, a começar pelo príncipe eleitor, Frederico, que impôs o culto da Santa por decreto em 1494 a todos os seus súditos. Os agostinianos, que receberam Martinho, eram os mais ativos propagadores da devoção à Santa na Alemanha.

Possivelmente, a experiência do raio e do voto de Martinho têm relação com sua percepção de que o pai não lhe aprovaria a decisão. Em uma situação como essa, sua mente juvenil recorreu ao voto para legitimar-se diante das pressões em sentido contrário. Lutero apresentou ao pai uma situação de intervenção sobrenatural sobre sua vida que não podia ser questionada, que colocava a vocação religiosa acima de outras prioridades (o direito) e outras instruções (o desejo paterno).

Os agostinianos, ao ouvir a história de Lutero, possivelmente lhe aconselhariam a deixar o voto. Se Martinho o fez por medo ou terror, não estaria obrigado a cumpri-lo. É razoável supor, então, que aquela resolução não foi súbita, mas vinha amadurecendo, em seu interior, lentamente.  O raio pode ter sido o catalisador que apressou a solução de um longo processo psicológico, ou mesmo apenas a narrativa para liberá-lo da carreira que o pai tinha para ele.

Um estudante de Erfurt convivia intensamente com frades e claustros. É possível que, nos seus dias de estudante universitário, Lutero tenha visitado os mosteiros beneditinos, agostinianos, franciscanos, dominicanos e outros na cidade. Martinho padecia de algumas melancolias, que lhe acompanharão pela vida afora. Ele gostava da vida de estudo, e nos tempos anteriores tornara-se um estudante mais aplicado. Em termos materiais, não buscava grandes riquezas. Também não tinha pretensões de grandeza ou poder. No ano de 1505, uma grande peste causou muitas vítimas no Império. Quando ela chegou a Erfurt, no mês de agosto, Lutero já se encontrava no mosteiro. Mas talvez as notícias da morte de parentes e pessoas conhecidas tenham influído em seu pensamento de retirar-se do mundo. Melanchton narrou na sua biografia de Lutero que a morte de um amigo seu, de nome Jerônimo Bunt, o impressionou vivamente, e exacerbou seu medo da morte e da perdição.[3]

Provavelmente, cada um destes elementos teve o seu papel na decisão do jovem de abandonar a Faculdade de Direito, a carreira que seu pai sonhou para ele, e abraçar a vocação monástica. O jovem Martinho queria ser monge.

 

Noviciado, profissão religiosa e sacerdócio

 

Erfurt contava com a presença de várias casas monásticas. É interessante ponderar então por que Martinho decidiu ingressar na de Santo Agostinho. Possivelmente porque conhecia bem os Agostinianos da Observância, o que pode ter produzido nele o desejo de ser como um deles. O mosteiro que receberá Lutero ocupava uma área de 7.500 metros quadrados e abrigava uma comunidade de cinquenta monges. Era o mais próximo da casa em que o universitário Martinho morava. Conversar com os filhos de Agostinho e criar algum tipo de vínculo com seus superiores não seria difícil naquelas circunstâncias. Provavelmente, em mais de uma oportunidade ele tenha se confessado com eles e ouvido os seus sermões.

O convento agostiniano de Erfurt foi fundado no século XIII, passando para a Congregação da Observância Agostiniana em 1474, cujo vigário geral na época de Lutero era João Staupitz.

Martinho levou duas semanas entre o voto na tempestade e a execução do propósito. Neste período, talvez tenha consultado alguns amigos. Falaria com o prior dos agostinianos ou com o mestre dos noviciados, pedindo informações sobre o ingresso. Parece que não chegou a pedir conselho ou permissão a seus pais. Somente lhes comunicou sua decisão e vontade, e antes mesmo de receber resposta da casa paterna, já estava no mosteiro.

No dia 16 de julho, vendeu a maioria dos seus livros em alguma livraria da cidade. Virgílio e um outro, entretanto, levou consigo para o convento. Em seguinte, reuniu um grupo de amigos para uma refeição. No dia seguinte, com alguns deles, se dirigiu para o mosteiro. Despediu-se deles, e, recepcionado pelo prior, que já o esperava, adentrou às portas daquela casa religiosa.

Os agostinianos devem tê-lo interrogado, antes de ser admitido como noviciado. Era comum, nestes casos, pedir ao candidato algumas informações sobre sua vida pregressa, algum tipo de costume digno de destaque, e, principalmente, se ele possui alguma enfermidade grave. Concluindo que o jovem estava preparado, este era instado a aguardar a cerimônia de noviciado, quando vestiria o hábito agostiniano. Martinho esperava também uma resposta de seus pais, mas esta não lhe agradou. A reação paterna foi furiosa. Hans se negava a conceder sua permissão.

O que talvez tenha quebrado o coração do pai foi uma peste que matou dois de seus filhos em Mansfeld, além do boato de que Martinho também teria sucumbido em Erfurt. Quando descobriu que o filho ainda vivia e estava saudável, finalmente deu a permissão.

Na cerimônia para receber o hábito,[4] que parece ter acontecido em setembro, ele se dobrou diante do Abade da casa e respondeu algumas perguntas sobre possíveis impedimentos canônicos: se era casado, se era servo, se tinha dividas por pagar, se tinha alguma enfermidade oculta. Martinho ainda ouviu uma exposição sobre a rigidez da Ordem, a necessidade da abdicação da própria vontade, a baixa qualidade do alimento, a pobreza das vestes, as vigílias noturnas, os trabalhos diurnos, o voto de pobreza, a clausura e coisas semelhantes. Esperava-se que o candidato respondesse que a tudo suportaria com a ajuda de Deus. É neste momento que ele oferecia seus cabelos à tesoura, recebendo a tonsura monacal, despia-se de suas vestes seculares, e recebia uma roupa branca e uma capa negra.

Cada candidato teria exatamente o mesmo conjunto de objetos: uma peça de roupa, uma cama, uma mesa de estudos, dois ou três livros e uma candeia. Estes noviços viveriam o ano probatório em uma parte reservada do mosteiro.

Deviam respeitar rigoroso silêncio na maior parte do tempo. O costume não seria muito diferente do que experimentara na Universidade. Acordar às quatro e deitar às vinte. Durante as refeições comiam em silêncio, enquanto escutavam uma leitura piedosa, que poderia ser um texto bíblico, privilegiadamente extraído do Saltério, ou mesmo um Pai da Igreja.

Depois que deixou a clausura e se casou, Lutero escreveu vários livros criticando a vocação monástica. Mas não se crê que a vida era tão severa como ele relatou posteriormente. O mosteiro de Erfurt era de estrita observância, cuja prática da regra agostiniana colocava ênfase na exigência de muito silêncio e oração. Não muito mais do que isso.

Depois de um ano, após ter conhecido com profundidade a regra de S. Agostinho, bem como os estatutos daquela Congregação de Observância, Martinho confirmou o propósito de abraçar a vocação religiosa, com a qual esperava poder satisfazer os anseios de salvação de sua alma e servir a Deus com a maior perfeição possível.

No fim de setembro de 1506, ele deixou o hábito dos noviços, recebendo no lugar as vestes dos professos. É nesta hora que ele fez os votos de castidade de alma e corpo, pobreza real e de vontade, obediência sem murmuração ou contradição ao superior.

A ordem monástica abraçada por Lutero não era formada por ascetas cristãos que se auto-exilavam do mundo em lugares remotos e desertos para contemplação. Os Agostinianos eremitas, organizados pelo papa Alexander IV em 1256 a partir de outros frades e eremitas italianos, tinham origem entre frades pregadores do século XIII e seu propósito era pregar e ensinar. A casa escolhida por Martinho tinha fortes laços tanto com a vida religiosa quanto com a vida acadêmica da cidade. Assim, ao entrar neste tipo de vida religiosa, Lutero não abandonava o mundo num sentido específico, e certamente não se retirava da vida acadêmica. Na verdade, ele estava se voltando para os estudos. Como era Mestre em filosofia, sua tarefa era lecionar possivelmente algum tratado de Aristóteles para os monges jovens.

Não há qualquer indício de que Martinho enfrentava dificuldade para cumprir seus deveres religiosos. Ele se esforçava para ser um bom monge, principalmente quando foi informado pelo seu superior que fora escolhido para a consagração ao sacerdócio. Como ele não havia cursado ainda seus estudos teológicos, precisava ter alguma instrução especialmente sobre os sacramentos e a missa. A recomendação foi a leitura do livro do filósofo escolástico germânico Gabriel Biel (1420-1495), “Sobre a Missa”, obra que expõe os poderes do sacerdote, as condições para exercer seu papel, e os impedimentos canônicos.

Nesta caminhada, recebeu o subdiaconato no dia 19 de dezembro de 1506, o diaconato no dia 27 de fevereiro de 1507, e no dia 3 de abril, com 23 anos de idade, Frei Martim foi ordenado sacerdote da Igreja romana, cerca de dois anos após o ingresso no mosteiro. É um prazo muito curto, e isso pode ter tido algum efeito nas suas angústias teológicas posteriores.

É provável que Martinho estivesse cheio de ansiedade com tudo o que lhe acontecia. Ele convidou seus amigos para participar de sua primeira missa, agendada para dentro de um mês, em 2 de maio. Esse prazo elástico era necessário para contar com a presença do pai de Lutero. Não se sabe ao certo se sua mãe ou então suas irmãs acompanharam àquela missa. Provavelmente não, já que mulheres não poderiam entrar na clausura ou se hospedar no convento. Hans Luder, entretanto, veio com uma comitiva de vinte pessoas a cavalo, com as despesas correndo por sua conta. Com essa ação o pai já sinalizava que o desgosto por vê-lo longe da carreira de Direito já passara.

Segundo descrições posteriores encontradas em seus textos, no dia 2 de maio, Frei Martinho Lutero se aproximou do altar acompanhado de um presbítero assistente, fez o sinal da cruz e recitou o Salmo 42 da Vulgata Latina. Pouco mais de um ano antes ele era aluno universitário naquela cidade, residindo em uma comunidade estudantil. Muito provavelmente, vários dos seus ex-colegas de Universidade que moravam na cidade estavam ali para apoiá-lo. Após a missa, todos foram convidados para a festa que aconteceria fora do santuário, com bastante comida, regada com algum vinho e muita cerveja.

Durante a festa, sentado ao lado do pai, falava sobre a beleza da vida monástica e o voto que fez em Stotternheim. Tentou levantar do seu pai então porque se ofendera com a decisão. Hans Luder contestou com a lembrança do mandamento bíblico para se honrar pai e mãe. O filho insistiu em culpar o relâmpago e a tempestade por ter feito o voto. Arrematou Hans: “Talvez aquilo não passasse de um fantasma”. As palavras do pai iriam sufocá-lo por um tempo. A crise espiritual que Martinho iria enfrentar era marcada por um disperso e diluído sentimento de culpa. Ouvir da boca paterna que ele quebrara um dos mandamentos bíblicos seria mais um elemento em suas inquietações.

 

Aluno e professor

 

A casa monástica agostiniana tinha seus estudos gerais incorporados à Universidade de Erfurt. Diante da percepção de seus superiores que tinha perfil docente, a principal ocupação de Lutero, nos anos 1507 e 1508, passou a ser o ensino de Filosofia. Para cumprir tarefa semelhante, em outubro de 1508, Frei Staupitz, vigário da Congregação, convocou Frei Martinho para lecionar na universidade de outra cidade, Wittenberg. Foi assim que pela primeira vez, após atravessar uma distância de 160 km, Lutero deixou Erfurt e entrou na pequena cidade situada à margem direita do rio Elba, encima de um pequeno monte. Seu nome significa “colina branca”, em latim, Leucorea, por causa da cor da areia do outeiro. No momento em que Martinho entrava por ela, sua população não passava muito de 2000 habitantes.

Na extremidade ocidental erguia-se um imponente castelo que o eleitor Frederico mandara construir em uma obra que durou dezoito anos de trabalho, juntamente com a Igreja de Todos os Santos, ou Igreja do Castelo, que estava enriquecida às expensas do eleitor com cerca de vinte mil relíquias colecionadas durantes anos. Os altares da igreja estavam embelezados com valiosas pinturas, quatro delas do pintor renascentista Albrecht Dürer (1471-1528). A Igreja funcionava também como paróquia da Universidade, espaço de realização de atos solenes acadêmicos. Na extremidade oriental da cidade, junto à porta, erguia-se o convento dos agostinianos.

Wittenberg era uma pequena cidade, sem muitos atrativos, bem diferente de Erfurt. O contraste entre as duas cidades era enorme. Dificilmente, em um lugar tão pequeno e sem grandes elementos de atração surgiria uma Universidade. O caso da acanhada cidade do Elba era diferente unicamente por causa da vontade do príncipe Frederico, que desejava dotar seu estado de um centro de estudos universitários parecido com o que seu primo, Jorge o Barbudo, conde da Saxônia Albertina, tinha em Leipzig.

Por isso Frederico criou uma Universidade na sua capital eleitoral com um decreto de 24 de agosto de 1502. A relação amistosa do eleitor com o Imperador Maximiliano I deu à nova universidade privilégios e imunidades parecidos com as Universidades de Paris, Praga e Leipzig. A inauguração aconteceu no dia 18 de outubro de 1502, com uma atividade festiva e a presença de muitos professores, estudantes e autoridades. O príncipe eleitor, entretanto, não compareceu ao evento, pois não gostava de multidão e preferia gerir seu eleitorado com muita discrição.

Inicialmente a Universidade possuía a Faculdade de Teologia, Filosofia e Direito. A de Medicina viria depois. Estando sob a autoridade direta do eleitor, Wittenberg era mais laica do que eclesiástica. Era Frederico que arcava com os honorários dos professores e as demais despesas da Universidade. Mesmo assim, ela podia conceder grau de Teologia em função da confirmação dada pelo papa Alexandre VI.

Agregadas à Universidade, não muito diferente de Erfurt, existiam duas cátedras sob a tutela dos irmãos agostinianos: uma de Sagrada Escritura, a cargo de Staupitz, e outra de Filosofia Moral. Foi para dirigir esta segunda que chegou Martinho. As aulas destas duas cátedras funcionavam no mosteiro.

O caso de Martinho, entretanto, requeria que ele desenvolvesse uma dupla atividade. Ele não terminara seus estudos teológicos e por isso foi impulsionado pelo próprio vigário a se matricular na universidade como discente de Teologia. Assim, os registros da Universidade contabilizam, para o final de 1508, 69 novos alunos. Entre eles estava o irmão agostiniano Frei Martinho Lutero de Mansfeld.

Era precisava frequentar no mínimo duas aulas diárias da Faculdade de Teologia, que versavam sobre as Sentenças do escolástico italiano Pedro Lombardo (1100-1160). Se o estudante tinha já obtido o Bacharel em Artes, poderia, em cinco anos, alcançar o Bacharel bíblico. Caso contrário, seriam necessários sete anos. Como parte dos requisitos, quase como um estágio acadêmico, o estudante precisava assumir uma turma e passar um ano lecionando algum livro da Bíblia. Gastaria mais dois anos ensinando os dois primeiros livros das Sentenças. Estas estavam estruturadas em quatro livros, e formavam um compêndio de teologia medieval, a base do ensino teológico de então. Outros dois anos seriam gastos nos livros terceiro e quarto. Os procedimentos regulares ainda demandavam mais dois anos de experiência docente para se obter o Doutorado em Teologia. No caso de Martinho, seu trajeto acadêmico foi bastante abreviado, muito em função do favor do vigário Staupitz.

No início de março de 1509, Lutero passou a lecionar na Universidade aulas sobre Bíblia como requerimento de seus estudos teológicos, ao mesmo tempo em que lecionava Filosofia no mosteiro. Enquanto professor iniciante de Bíblia, aplicava-se a comentar em sala de aula um livro bíblico à sua escolha, normalmente um capítulo por aula. No semestre seguinte, começou o ensino das Sentenças, mas não pode concluir o curso, já que a casa de Erfurt o chamava de volta com urgência. Um professor havia falecido e Lutero foi requerido para ficar em seu lugar.

 

Primeiras ansiedades

 

Seja por saudade dos pais e amigos, por passar um tempo em um mosteiro e em uma cidade nova, seja por sua ainda tenra idade, ou algum distúrbio de natureza psicológica, o que é certo é que Frei Martinho passou a sofrer de melancolias e crises de consciência que começaram a se acentuar em Wittenberg.

Ele tinha 25 anos, estava muito ocupado nos estudos, tanto como professor de filosofia, quanto como aluno de teologia. Ele não tinha tempo livre e ocioso para divagações. Mas isso não impediu o aparecimento de uma persistente depressão. A causa de sua profunda tristeza era algum tipo de pensamento de que ele não contava com o favor e a benignidade de Deus. Somava-se a isso a perspectiva de que as demandas divinas lhe pareciam impossíveis de serem cumpridas para se alcançar a salvação. O resultado era uma forma exacerbada de culpa e medo da perdição.

Isso levou Lutero a buscar exageradamente a absolvição por meio da confissão. Ele se confessava com Stauptiz muitas vezes. O ancião replicava que não o entendia, porque não achava falta real nas confissões. Lutero tinha uma crise profunda com a doutrina da predestinação. Pensava que talvez estivesse destinado irremediavelmente ao inferno. Mas neste caso, não haveria nada que pudesse fazer. De que adiantariam suas obras de mortificação física e espiritual? Temores e dúvidas de consciência o empurravam de confessor para confessor, mas ouvia de cada um que o que ele verbalizava não era mais do que pecado imaginário.

Quando, em 1509, depois de um ano intenso de atividades acadêmicas em Wittenberg, ele obedece à convocação de seus pares, e retorna para Erfurt, Martinho Lutero leva na bagagem um espírito cada vez mais angustiado.

 

Retomada em Erfurt

 

O semestre na Universidade de Erfurt começou no dia 18 de outubro de 1509 e foi até o fim de abril de 1510. Lutero parte novamente do primeiro livro das Sentenças. Maio é mês de férias para os estudantes. No semestre de verão, que começa em junho e segue até outubro, conseguiu ensinar o segundo livro.

As crises de consciência que se manifestaram em Wittenberg vieram com ele para Erfurt. Seus relatos denunciam uma consciência doída pela percepção de fragilidade na direção do pecado, da ira e da devassidão. Provavelmente, no local em que se encontrava inserido, nenhuma mulher lhe cruzava o caminho. Mesmo assim, ele pensava que havia cometido algum pecado. E como Deus odiava o pecador, seus exercícios espirituais nada adiantavam.

Ao buscar um confessor, ouviu o mesmo que Staupitz já lhe dissera antes. Procurou outro e outro, em uma peregrinação que produziu um efeito curioso. Depois de algum tempo, ninguém mais queria ouvi-lo.

Em outubro de 1510, começou a ensinar o terceiro livro das Sentenças, mas não chegou a terminá-lo, pois foi envolvido em uma crise burocrática de sua Congregação que o obrigou a viajar até a sede da Igreja romana.

 

Na sede da Igreja romana

 

Lutero só saiu do Império Germânico uma única vez em toda a sua vida, e justamente para ir até a cidade de Roma. Esta viagem não ocupou um papel decisivo na sua carreira religiosa. Provavelmente o quadro que ele encontrou na Roma do início do século XVI não provocou no seu espírito nenhuma reação explosiva de escândalo ou mesmo influiu na sua reflexão teológica. Após o retorno da viagem, ele continuou por quase uma década com suas atividades de monge agostiniano. Mesmo assim, o encargo em Roma revela o papel de destaque que ele já exercia entre seus irmãos agostinianos da Alemanha.

No século XV, os mais de cem mosteiros agostinianos espalhados pelo Império se agrupavam em quatro províncias: os da Saxônia-Turingia, que abarcavam todo o norte da Alemanha; os da Renânia-Suábia; os da Baviera, que se estendiam até Áustria e Boêmia, e os de Colônia, que abraçavam também Flandres e os Países Baixos. O relaxamento religioso que atacava as ordens monásticas desde a metade do século XIV atingira igualmente a Ordem de S. Agostinho. Por isso, entre os agostinianos, como igualmente entre outras ordens, surgiu um movimento de reforma, traduzido em diversas Congregações de Observância, dependentes apenas de um vigário geral com ampla autonomia. Na Alemanha, a Congregação de Estrita Observância Agostiniana foi organizada por Frei Enrique Zolter em 1432, sucedido em 1503 por Frei João Staupitz. Este iniciou então um processo de aproximação entre os observantes e os demais agostinianos da sua região, processo que encontrou resistência de um grupo de mosteiros, entre eles a casa de Lutero, em Erfurt.

Foi para representar o grupo de resistência aos projetos de Staupitz que Lutero e outro companheiro receberam a missão de encaminhar um protesto formal até Roma. Havendo recebido as cartas para creditar a missão junto aos conventos por onde passariam, e algumas moedas para eventuais despesas pelo caminho, os frades iniciaram a longa marcha em novembro de 1510. Eles deveriam percorrer a pé um caminho de 1.400 quilômetros antes de chegar a Roma. No verão talvez fizessem uma marcha de 40 quilômetros por dia, levando 35 dias para fazer o percurso. Mas era inverno, com as montanhas cobertas de neve. A viagem fria deve ter levado 40 dias, com 35 quilômetros por dia, o que requeria de ambos saúde e disposição.

Com a bolsa no ombro e um bastão na mão, subiam e desciam as encostas, cruzavam as planícies, atravessavam as cidades. Eles tinham 40 dias para ir e 40 dias para voltar, com autorização para ficar na cidade-sede da Igreja em torno de quatro semanas para tratar dos negócios da Congregação.

Assim que chegaram a Roma, devem ter procurado se entrevistar com o procurador da cúria romana. Eles precisavam do seu parecer para dar sequência a qualquer negociação. O prior geral da Ordem Agostiniana era Frei Egidio de Viterbo, que compartilhava dos projetos unionistas de Staupitz para a Alemanha. Portanto, o protesto de alguns conventos amotinados provavelmente não daria em muita coisa. Além do mais, Lutero e seu companheiro não conseguiriam buscar o apoio de qualquer cardeal, ou mesmo do papa, já que todos estavam ausentes naquele momento de Roma. Entre o fim de 1510 e princípio de 1511, Júlio II e a maioria de seus cardeais se encontravam à frente de tropas guerreando contra o duque de Ferrara. Este papa amigo de Rafael e Michelangelo gostava de comandar seus exércitos pessoalmente. Só dois cardeais estavam em Roma naqueles dias. Um estava preso, acusado de estar do lado dos franceses e ser conciliarista. O outro se encontrava muito doente, às portas da morte.

Como Lutero nunca viu o papa em Roma, nem qualquer cardeal em Roma, as acusações que fará posteriormente a respeito de suas vetes e dos rituais de Roma podem ter vindo de leitura ou mesmo de rumores que escutou enquanto andou pela cidade.

Roma era uma cidade de aparência medieval, cuja população alcançava 40 mil habitantes, não muito maior do que Erfurt, de onde vinha Martinho. E mesmo que muitos peregrinos retornassem escandalizados com os vícios que encontravam na cidade, a fé de Lutero na Igreja e no pontífice não foram alterados por causa de sua caminhada pelas ruas da cidade milenar.

De qualquer forma, assim que os dois agostinianos perceberam que nada conseguiriam diante de seus superiores romanos, decidiram voltar para a Alemanha. Mesmo sem o apoio de Roma, os rebeldes não se renderam, e Staupitz acabou renunciando aos seus planos unionistas, apesar de continuar como vigário geral da Alemanha. Nesta posição, elegeu como subprior de Wittenberg o próprio Martinho Lutero, que fora a Roma falar contra seus projetos. Staupitz não conseguia guardar mágoa de seu pupilo.

 

Doutor em Wittenberg

 

No verão de 1511, Frei Martinho desvinculou-se do mosteiro agostiniano de Erfurt para ingressar de vez na casa da Congregação em Wittenberg, outra vez a pedido de Staupitz. O vigário desejava deixar sua cadeira na Universidade de Wittenberg e queria que Lutero o substituísse. A pequena cidade será a partir de então a casa de Lutero até o fim de seus dias.

Ele retorna para a cidade para continuar as mesmas funções que antes exercera, mas receberá um terceiro ofício desta vez. Ele se torna o pregador da igreja do convento e, eventualmente, da paróquia central da cidade. Com o tempo, se tornará o pregador por excelência de Wittenberg, chegando a pregar quatro sermões em um mesmo dia. Ele geralmente levava para o púlpito os mesmos textos bíblicos que ensinava na sala de aula. Seus sermões eram, assim, extensões de suas aulas.

Antes de concluir sua formação teológica, Frei Martinho viajou a Colônia para assistir, como delegado do convento de Wittenberg, ao capítulo da Congregação celebrado entre 2 e 8 de maio de 1512. Foi nesta assembleia que Martinho foi nomeado subprior de Wittenberg. Retornando à cidade, mudou-se para uma cela mais acolhedora, em função de sua nova posição, situada no alto da torre do lado sul do convento, com abertura para o jardim.

Em 4 de outubro de 1512, o chanceler da universidade, diante do corpo docente, outorgou-lhe, em nome da Igreja de Roma, a autorização para ensinar as Escrituras. Lutero jurou obedecer a Igreja e ouviu o discurso de um dos professores da Faculdade de Teologia. Em seguida, todos participaram de um banquete promovido pelo eleitor Frederico. Era a primeira mostra de favor deste príncipe secular, provavelmente por recomendação de Staupitz.

Duas semanas depois, sucederam-se os atos de conclusão do doutorado em Teologia. O primeiro aconteceu em 18 de outubro, com uma disputa escolástica. No dia seguinte, pela manhã, agora na frente de alunos, professores e amigos, Lutero recebeu a dignidade de Doutor em Sagrada Teologia.

Antes de todos se retirarem, aconteceu outro torneio teológico, em que dois mestres de teologia combatiam em torno de um tema como se fossem galos de briga até que o juiz finalizasse o confronto. Lutero retornou para o mosteiro agostiniano, onde ofereceu uma refeição para os convidados.

No fim de outubro, finalmente, Martinho, antes mesmo de completar 29 anos, era formalmente membro do corpo seleto de professores da Faculdade de Teologia da Universidade de Wittenberg, em substituição a Frei João Staupitz. O título de sua cátedra era Estudos de Escritura, e se tornará em breve a mais famosa da Universidade.

 

O professor de Sagradas Escrituras

 

Martinho será professor de uma única cátedra durante seus 32 anos de docência. É toda uma vida consagrada ao ensino da Bíblia, com um breve parêntese no período em que esteve escondido no castelo de Wartburg. Apesar de ter um domínio maior do Novo do que do Antigo Testamento, nem por isso fugia da primeira parte do cânon. Estes foram os livros que ensinou na cátedra:[5]

– Salmos (1513-1515)

– Romanos (1515-1516)

– Gálatas (1516-1517)

– Hebreus (1517-1518)

– Gálatas (1518)

– Salmos (1519-1521)

– Deuteronômio (1523-1524)

– Profetas menores (1524-1526)

– Eclesiastes (1526)

– Isaias, 1 João, Tito e Filemon (1527)

– Isaias (1527-1530)

– 1 Timóteo (1528)

– Cantares de Salomão (1530-1531)

– Alguns Salmos (1532-1535)

– Isaías (1543-1544)

– Gênesis (1535-1545).

 

Ele escolheu para seu primeiro curso o livro dos Salmos, livro que ocupava um lugar privilegiado na vivência monástica. Era o livro de cada dia, todo o dia, e muitas vezes ao dia. É bem provável que Martinho, no interior da clausura, percorresse suas páginas, escutasse sua leitura, lesse-o sozinho, cantasse-o com seus irmãos na liturgia. Para ensiná-lo, então, mandou imprimir o texto latino. Solicitou que se abrisse as margens e o espaço entre as linhas. Ele usou estes espaços para registrar suas anotações abreviadas e alguns comentários de natureza filológica. Redigiu ainda um conjunto de anotações à parte, aprofundando a interpretação de algumas passagens que lhe chamavam mais a atenção. Este primeiro curso durou um ano e meio, começando em agosto de 1513 e terminando em abril de 1515.

Algumas passagens bíblicas lhe pareciam mais complexas do que outras. Era como se possuíssem uma casca mais dura. Sua estratégia era, então, bater com uma “pedra” até que a casca se quebrasse para encontrar a “polpa suave”. A pedra, ele dizia, era Cristo, que ilumina toda a Escritura. Lutero fazia uma leitura cristológica do Antigo Testamento.

Aqueles três semestres de exposição pública dos Salmos levaram-no a refletir longamente sobre a justiça de Deus, a misericórdia, o pecado, a justificação, temas que ressoam sem cessar no Saltério. Foi uma época de fermentação doutrinária, que desembocará no dogma da radical corrupção humana pelo pecado original, e a consequente justificação somente pela fé.

 

A carreira dentro da Congregação

 

No final de abril de 1515, o capítulo da Congregação de Martinho reuniu-se em Gota, sob a presidência de Staupitz. O novo professor de Bíblia de Wittenberg ficou encarregado da conferência de primeiro de maio para toda a assembleia. Lutero aproveitou a oportunidade para desferir um ataque violento contra certas pessoas e conventos. Ele não chegou a nomeá-los, mas provavelmente eram frades ali presentes responsáveis pelos conventos desafetos de Staupitz, os mesmos que lhe enviaram a Roma não fazia muito tempo. Eles rejeitavam a união das casas agostinianas em nome de uma disciplina monástica mais severa. Essa postura de santidade orgulhosa, entretanto, não os impedia de continuamente se insurgirem contra o superior, e mesmo murmurarem contra o restante da Congregação.

Martinho Lutero demonstra, desta forma, estar bem inserido na sua Congregação, em sintonia com o superior de sua ordem. Colocando-se ao lado de Staupitz, ele se envolveu em um conflito com outros frades que aparecerá com frequência nos seus textos deste período.

Certamente existia alguma afinidade entre superior e pupilo, apesar de suas diferenças. Um era brando e pacato; o outro era radical e guerreiro. Mas havia uma amizade sincera. Poucos meses antes de morrer, Lutero escreveu que seria um “condenado e desgraçado asno papal” se não elogiasse ao Dr. Staupitz, como aquele que foi seu primeiro pai na doutrina.

Martinho entendia que foi Staupitz quem lhe encaminhou para a doutrina da fé sem obras, apesar de dificilmente ter acontecido de uma forma explícita, já que seu superior era um homem de fortes vínculos com sua Ordem e não demonstraria algum tipo de crítica aos dogmas da Igreja romana. Apesar da benignidade por aquele filho que viria a se separar, e sua simpatia pela doutrina de Lutero, o velho mentor nunca chegou a abraçar formalmente o protestantismo e morreu no interior da Igreja dos papas.

Dentro da sua Congregação, Lutero tinha fama de ser um monge trabalhador, culto, zeloso e amante da Ordem de Agostinho. Por causa destas marcas, ele foi eleito por seus irmãos, em 1515, vigário distrital, com jurisdição sobre onze conventos, cargo que ocupou até 1518. Desde então, as aulas universitárias, e as pregações nos púlpitos de Wittenberg não eram mais sua única atenção.

Em função disso, ele chegou a reclamar com seu amigo João Lang, prior de Erfurt, em outubro de 1516, de suas muitas ocupações:

Dois amanuenses ou secretários me são quase indispensáveis; em todo o dia quase não faço outra coisa que escrever cartas, de sorte que não sei se repito sempre as mesmas coisas. Sou o pregador do convento, leitor e prefeito de leitura no refeitório, me chamam cada dia a pregar na paróquia, sou regente de estudo, sou vigário, que é como dizer onze vezes prior; sou o encarregado de trazer o pescado de Leitzkau, sou o advogado dos frades de Herzberg, cuja causa se debate em Torgau; sou leitor de São Paulo; recolho material para o comentário do Saltério e, na maior parte do tempo, fico escrevendo cartas. Rara vez disponho de todo o tempo necessário para recitar as horas e celebrar a missa, sem contar as próprias tentações da carne, do mundo e do diabo.[6]

 

O círculo de amigos

 

Pouco a pouco, de sua cátedra de Wittenberg, de suas pregações e de seus escritos, nascia uma ênfase doutrinária bem peculiar. Nos percursos, alguns o aplaudiam, outros o criticavam pelas novidades. Dentro do convento, muitos frades o seguiram. Na Universidade de Wittenberg, sua nova teologia despertou entusiasmo e obteve o apoio de vários professores, entre eles Nicolás de Amsdorf (1483-1565) e Andrés Bodenstein de Karlstadt, que morreu em 1541.

O primeiro era um parente de Staupitz. Doutorou-se em teologia em 1511. Desde o início das crises sobre as indulgências, ele será um fiel discípulo de Martinho, fazendo parte do seu círculo de amigos íntimos. O outro será um aliado no início do movimento evangélico, mas se afastará de Lutero depois de 1522. Juntos, estes professores ajudaram Martinho a implantar na Universidade um rígido agostinianismo, uma teologia fundamentalmente bíblica, e uma oposição violenta contra a escolástica.

Três decisões do ano 1518 imprimiram novo rumo aos estudos da Universidade de Wittenberg. Decidiu-se que as aulas de filosofia deveriam basear-se somente nas melhores traduções de Aristóteles, eliminando os comentários tomistas e escotistas. Em segundo lugar, aumentou-se o número de autores clássicos para leitura dos alunos, incluindo aí Quintiliano, Plínio e Prisciano. Finalmente, abriu-se o curso de Grego e de Hebraico.

É neste contexto que chegou para fazer parte do quadro de professores da Universidade, no dia 25 de agosto de 1518, alguém que será o amigo mais próximo de Lutero. Felipe Schwarzed foi convidado pelo príncipe Frederico para Wittenberg por causa da indicação de João Reuchlin, um respeitável helenista e hebraísta da Alemanha. Com 20 anos ele já ensinava na Universidade de Tubinga, na cátedra de Grego. Sua paixão pelo idioma de Homero o levou a helenizar o próprio nome, passando a chamar-se Felipe Melanchton. Já na sua chegada, despertou a admiração de todo os professores, com sua ênfase humanista na necessidade de se voltar às fontes.

 

Salvação pela graça

 

Com o semestre de verão do ano de 1515, Frei Martinho começou suas aulas sobre Romanos. As lições duraram até 9 de setembro do ano seguinte. Em outubro de 1516, ele começou o curso sobre Gálatas. Os caminhos teológicos de Martinho estão se tornando mais definidos. Ele se aproxima do texto com certo subjetivismo, já que constantemente rompe com as interpretações tradicionais. Há ainda certa incoerência doutrinal, possivelmente porque seu sistema dogmático não está pronto.

Sua principal tônica universitária é uma reação à teologia escolástica, que o empurrou na direção de S. Agostinho e das cartas bíblicas de Paulo. O ponto de partida desta reflexão, que funcionou como um princípio fundamental, era a convicção de que o pecado permanece sempre no ser humano. Este nasce como pecador, e vive toda a sua vida acompanhado pelo desejo de pecar. Cada pessoa, mesmo a mais abnegada, o asceta mais radical, ainda carregaria o pecado dentro de si. Não há nada que se possa fazer. Isso significa que estão todos destinados à perdição? A resposta de Martinho a essa questão é também seu segundo dogma fundamental: a solução está na confiança em Cristo. Pela fé o ser humano é tornado justo.

Deus faz isso de forma gratuita. Ele deixa de imputar os pecados, e aplica naquele que crê os méritos da obra de Cristo. O ser humano é então simultaneamente justo e pecador. Pecador na realidade, mas justo na reputação diante de Deus. Justo porque tem fé em Cristo. Pecador porque vive com o desejo pelo pecado.

Faz então todo sentido que Lutero se volte violentamente contra os que ele chama de justiciários, pessoas que confiam em suas próprias boas obras, e que esperam ser premiados por sua ascese. Estes justiciários eram os frades de Erfurt e outros conventos semelhantes que seguiam a estrita observância e menosprezavam os conventos como o de Wittenberg. Os justiciários eram aqueles que davam importância exagerada às obras externas, ao ritual, ao cerimonial. Eles eram os adversários de Staupitz.

Durante este período, suas palavras estão cheias de crítica a certos frades e sacerdotes, alguns pregadores e superiores eclesiásticos, mas ainda não apresentam nenhuma rebeldia contra a Igreja romana. Sua controvérsia faz parte da crise monástica da Ordem agostiniana na Alemanha, especificamente na Saxônia.

Seu coração inquieto estava descobrindo em Paulo as ideias que o ajudavam a sair do intricado labirinto em que se meteu a sua consciência. A primeira luz surgiu na carta aos Romanos, que ele ampliou com o estudo de Gálatas. Com este mesmo objetivo, ele seguirá estudando a carta aos Hebreus.

Desde a Páscoa de 1517 até a páscoa de 1518, dois semestres completos, ele ensinou a carta aos Hebreus, ano em que se esforçou para aclarar o dogma da justificação pela fé. Suas aulas deveriam ser às seis da manha. Mas neste curso ele solicitou que acontecesse a partir do meio dia.

A justificação pela fé como um ato extrínseco, de fora, imputação divina da justiça de Cristo, sem necessidade de qualquer obra humana, foi sua primeira solução teológica para a crise espiritual que experimentava. É possível dizer que suas crises de consciência diminuíram um pouco. Mas ainda resistia certa dúvida se aquilo que ele entendia ser obra exclusiva de Deus havia acontecido com ele. Ele tinha por certo que somente a fé justifica, mas ainda não sabia se cada pessoa que tinha fé recebia o benefício divino. Como dependia puramente de Deus, sempre ficava uma pulga atrás da orelha a respeito de sua própria situação espiritual.

As aulas destes anos não foram encaminhadas para publicação. Ele achava que não havia nada relevante que convidasse à divulgação impressa. O tom de suas anotações é sereno, impessoal, típico do Doutor em Teologia e do professor universitário. Suas afirmações são significativas para sua dogmática, mas ele ainda parece falar sobre terceiros, como se aquilo ainda não se aplicasse a ele.

 

A experiência da torre

 

Os biógrafos de Lutero sempre tiveram dificuldade para explicar a crise religiosa de um jovem frade educado na piedade tradicional da Igreja romana. Como um monge integrado na Igreja se transforma em um adversário furioso da hierarquia e do papado? Muitos anos após o início de sua ruptura com Roma, procurando legitimar seu movimento, o reformador argumentou que sua crise religiosa fora provocada por um Cristianismo deturpado que não possuía o verdadeiro conhecimento de Jesus Cristo, que punha a confiança em obras humanas e desprezava a graça divina.

Ao entrar para a Ordem de Agostinho, praticou tudo quanto a Igreja recomendava, guardou fielmente os votos religiosos de pobreza, castidade e obediência, fez muita penitencia corporal, confessava-se frequentemente, participava da missa quase diariamente. Ele dizia que se algum monge pudesse fazer-se santo, este era ele. Mesmo assim, ele não encontrou tranquilidade de consciência, e a certeza de estar sobre a graça de Deus. Antes, sentia-se aterrorizado diante de um Jesus que era mais Juiz eterno e menos Salvador misericordioso.

Um dia, lendo o apóstolo Paulo do alto de sua torre no mosteiro, especialmente a passagem de Romanos 1.17, como relatou depois, sentiu a iluminação do Espírito de Deus, e logo ele entendeu que o único caminho para alcançar a graça de Deus era a plena confiança na redenção de Cristo. Assim alcançou a paz e solucionou sua crise religiosa.

Esta foi sua maneira de explicar seu rompimento com a Igreja, seguida frequentemente pelos seus primeiros biógrafos. Mas ela precisa ser matizada.[7]

Sobre a questão das mortificações, a vida que ele levou no mosteiro era semelhante à orientada pela Regra agostiniana. Tudo o que ele fez, outros frades de seu tempo deveriam também fazer, o que não chegava a ser um ascetismo exagerado. Havia regras ainda mais rígidas que a de S. Agostinho.

Sua crise não deve ter sido do tipo físico ou sexual, porque se assim fosse rapidamente seus adversários teriam se valido dela nos debates. Não era uma crise nervosa, maníaco-depressiva, com angústias reprimidas dos tempos da infância que desembocará em uma solução teológica. A crise de Lutero foi propriamente uma crise de consciência religiosa que começou com inquietações espirituais, transformando-se em profunda incerteza teológicas quanto ao destino após a morte.

Apesar de algum tipo de inquietação emocional e espiritual ter levado Martinho a abraçar a vocação religiosa, aparentemente os primeiros anos de Erfurt devem tê-lo acalmado. Assim, as inquietações mais significativas mesmo surgiram quando ele foi chamado pela primeira vez para Wittenberg, em 1508, um ano após sua primeira missa, quando estava com 26 anos. Este tipo de ansiedade pode proceder de fortes escrúpulos morais ou de uma aspiração frustrada de maior santidade. É quando começa a sentir tentações contra a castidade, acompanhadas de melancolia e uma consciência exacerbada de culpa. É neste período que ele inicia as peregrinações pelos confessionários.

Ele quer paz de consciência, e a dúvida sobre a salvação de sua alma lhe assombra. Ele tem a percepção de que as tentações poderiam lhe roubar a salvação. Assim, o temor de Deus se transformou em terror de sua justiça.

O caminho da confissão sacramental que ele tentou inúmeras vezes não era suficiente para restaurar sua tranquilidade. Se ele se arrepende porque tem medo da ira de Deus, seu arrependimento lhe parece fingimento, fenômeno que provavelmente ele encontrou nas críticas que o profeta Oséias fez ao arrependimento fingido do povo de Israel no século VIII antes de Cristo. Este tipo de contrição provocaria ainda mais a ira de Deus.

Não há motivo para duvidar de sua observância religiosa, e seu desejo de cumprir a regra agostiniana nos mínimos detalhes. Mas a primeira ida a Wittenberg aumentou suas melancolias, que só pioraram quando ele retornou pela segunda e definitiva vez.

Lutero era professor, escritor, pregador, procurador de certos negócios conventuais, vigário de onze conventos, nutrindo uma intensa correspondência. Suas múltiplas obras religiosas podem ter aprofundado a sensação de uma vida artificial e farisaica.

Ele tentou alguns remédios para a crise. A primeira foi a mais óbvia no contexto monacal: a penitência, a confissão e a mortificação da carne. Ele esperava que estas ações lhe trouxessem não só o perdão dos pecados senão a extinção da sede do pecado. Como isso não acontecia, ele entendia que suas ações não tinham qualquer resultado. Pretendendo se justificar diante de Deus por meio de suas próprias obras, ele se meteu em um beco sem saída. A segunda fase da crise começou quando ele se transferiu pela segunda vez para Wittenberg. Os elementos psicológicos, com sua melancolia, e morais, com a consciência aumentada de culpa, desembocaram em uma crise teológica, que levam Lutero a questionar a natureza de alguns dogmas tradicionais.

Quando Martinho percebe que suas obras religiosas são inúteis para trazer-lhe tranquilidade de espírito, ele começa a desprezar a estrita observância monacal. Aqui também se nota o papel de sua reação contra os justiciários de Erfurt, após sua aliança com Staupitz. Lutero os acusa de desobedientes e orgulhosos de sua própria santidade. Em seus comentários dos Salmos, escritos em 1513, já aparece este confronto. Mas é possível pensar que os primeiros desencontros tenham se dado mesmo em 1511, após o fracasso da missão em Roma.

Este parece ser o ponto de partida do edifício doutrinal de Martinho Lutero. Há em seu espírito um sentimento de humildade diante da santidade de Deus, uma sensação de passividade. Não há nada a se fazer. Não há ação humana. Toda a obra é divina. Erram os justiciários.

A solução de Lutero para esta crise foi sua doutrina da justificação pela fé somente. Não é preciso obras para ser justificado e ser salvo. Cristo pagou pelos pecados humanos. Basta a confiança em Cristo para que Deus considere as pessoas como justas.

Todos estes elementos entraram em fermentação durante os anos críticos de fins de 1508 até princípios de 1515, ou seja, desde sua primeira passagem por Wittenberg, até o início do curso de Romanos. Ao ler Romanos 1.17, Martinho entendeu que a expressão “justiça de Deus” que ali aparece não é a que castiga os pecadores, mas a que os santifica. O homem é justificado pela fé somente, pela confiança exclusiva no Cristo. Deus prometeu a salvação. Quando alguém crê e confia nesta promessa, apropria-se da justiça de Cristo e é salvo. Foi essa a iluminação que Lutero entende ter recebido por obra do Espírito Santo. Por isso passou a ser conhecida como “experiência da torre”, já que era na torre do mosteiro, voltada para o jardim, que Frei Martinho esclarecia suas ideias.

Durante o ano 1512, em que alcançou o Doutorado, ainda não há evidência de tal iluminação. Em abril de 1515, ele começa a explicar a seus discípulos a carta de Romanos e lhes apresenta tal doutrina. Isso significa que, durante os anos de 1513 e 1514, em função de crises emocionais, morais e teológicas, pressionado por conflitos contra uma ala mais radical de sua Congregação, as ideias de Martinho se aclaram paulatinamente por meio de reflexões, estudos, tentações, dúvidas, polêmicas, conflitos, até que, durante a preparação das aulas de Romanos, ele chega ao dogma da justificação pela fé. É certo que ele não o forjou de um só golpe. Descobriu-o aos poucos.

A experiência da torre, sua intuição intelectual, não foi instantânea, nada parecido com o relâmpago que ele viu na floresta de Stotternheim. Como vários outros processos humanos, foi algo lento e progressivo, clareando-se paulatinamente em

[1] O presente foi adaptado do livro MIRANDA, Valtair A. Lutero: História, poder e palavra. São Paulo: Fonte Editorial, 2018.

[2] Valtair Afonso Miranda é graduado em Teologia pela FTSA; graduado e licenciado em História pela UNIVERSO; Mestre em Teologia pelo STBSB; Mestre em Ciências da Religião pela UMESP; Doutor em Ciências da Religião pela UMESP; Doutor em História pela UFRJ. É professor de Novo Testamento e História da Igreja na Faculdade Batista do Rio de Janeiro/Seminário do Sul, onde atua como Diretor Acadêmico. Atualmente desenvolve pesquisas sobre história da leitura da Bíblia e grupos milenaristas. É autor de várias obras, entre elas O Caminho do Cordeiro (Paulus Editora), Fundamentos da Teologia Bíblica (Editora Mundo Cristão), Lutero: História, Poder e Palavra (Fonte Editorial), Mártires e Monges: milenarismos antigos e medievais (Kapenke), Atos Apócrifos de Pedro (Paulus Editora) e Espiritualidade Apocalipse: o Apocalipse ao alcance de todos (Litteris Editora).

 

[3] Conferir esta biografia em VANDIVER, Elizabeth; KNEEN, Ralph; FRAZEL, Thomas D. Luther’s lives: two contemporary accounts of Martin Luther. MANCHESTER: Manchester University Press, 2002. p. 14-39.

[4] Para a descrição do noviciado e da cerimônia de recepção do hábito monástico, cf. GARCIA-VILLOSLADA, Ricardo. Martín Lutero: El fraile…, op. cit., p. 92-97.

[5] BAYER, Oswald. Luther as an interpreter of Holy Scripture. In: MCKIM, Donald K. (org.) The Cambridge companion to Martin Luther.Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. 73-85; GARCIA-VILLOSLADA, Ricardo. Martín Lutero: El fraile…, op. cit., p. 182.

[6] GARCIA-VILLOSLADA, Ricardo. Martín Lutero: El fraile… op. cit., p. 207.

[7] Ibid., p. 248-318.

 

 

 

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